Mais um momento
Tuesday, September 28th, 2010Quem conheceu o mínimo da história do Velhos e Usados sabe que nossa onda nunca foi buscar padrões. Tão pouco nos esforçamos para ficar longe deles. Na verdade o lance do Velhos sempre foi deixar fluir. Em referências, em histórias e estórias, no aprendizado, na própria moda ou no oposto dela. Simplesmente transformamos em som o que cada momento apresentava. Eis uma bela definição para nosso som: musica de momento. Nossos momentos.
Lembro que na faculdade, quando conheci o Diego em uma serenata para a namorada de um amigo, nossa música exalava testosterona. Viagens, cerveja, mulheres, farra e descompromisso. O ano era 2003. “Vamos fazer uma banda?”. Nada mais natural para canalizar tanta energia. Junto com Lelo, Vitor, Michel e o velho Macarra tivemos bons anos de musica pra pular. Essenciais, diga-se de passagem.
No final de 2004, o momento que apontava na curva era de decisão. Fim de faculdade, início de vida adulta. “O que vou ser?” Pergunta que logo fez alguns membros seguirem outros caminhos. Perdas que sempre resultavam em conversas com Diego “E agora, bicho? Como faz?” ele, sempre muito sereno, dizia “Cautela. A gente sempre dá um jeito, não dá?”. Com jeitos e mais jeitos a vontade de dar certo sempre resolveu.
Assim, 2005 trouxe uma mudança radical. Lá estavam Marlon, Rodrigo e Arthur. Rodrigo era o velho amigo, um irmão, um cara sempre presente que já fazia parte de tudo aquilo e, aos poucos, tornou-se o responsável por cuidar de uma das marcas registradas da banda. Marlon era o batera da pegada jazz, da referencia antiga. Um capeta em forma de guri com muito talento em meio a seu inconfundível monodread. Arthur era o mais novo, a veia do rock, virtuoso. Intercalando a gagueira fora do palco com a performance empolgante lá em cima. Ali, já transformado em Didi, ele cuspia na timidez, insistindo em encaixar notas onde dizíamos que não cabiam. Mas ele fazia caber! Enfim, gente com tudo para fazer acontecer. Dito e feito.
2006 findava e o momento era de vislumbrar a maturidade. Foi aí que a banda virou oficialmente Velhos e Usados. Nesse meio tempo, Marlon também dobrou a esquina por conta própria. E logo no inicio do ano seguinte o encaixe aconteceu. Depois de muitos telefonemas, Marco estava lá. E bastou um ensaio. Como em uma cena de filme, nos olhávamos quase em slow-motion sem acreditar que a banda existiu antes desse doutor biólogo beatlemaniaco. O time que se formava era empolgante. A música atingia, passo a passo, o que buscávamos naquela hora. O momento agora era objetivo.
E 2007 trouxe ações objetivas. Mudamos completamente a maneira de apresentar o som, tecnologia direcionando tudo para o que precisava acontecer. Veio o disco. Um híbrido de todas essas fases e personalidades, referências e perspectivas. E com essa toada objetiva também veio a Ju. Produtora e amiga. Um misto de ternura e dureza que se tornou nosso pé no chão, nossa noção de responsabilidade. Aprendemos que precisávamos de movimento se quiséssemos transformar esses objetivos em realidade.
E foi assim que, em 2008, produzimos um show épico. O momento agora era de intensidade. Lançamento do disco, casa lotada, estrelinha no jornal e seção de autógrafos. A realidade mudara. As pessoas iam aos shows. A banda viajava, virtual e fisicamente. O reconhecimento dos fãs veio de norte a sul e até de além mar. Assim, víamos as coisas acontecendo de forma mais intensa e assim vivemos esse ano intensamente. Embriagados em nosso som. A ressaca era inevitável.
Como se bastasse o ano anterior para seguir com um crescimento natural, em 2009 deixamos tudo com a maré. Mas não era bem assim. Aos poucos os shows diminuíram. Nossa criação também. Era como se um ciclo se fechasse e voltássemos aos momentos anteriores, que, dessa vez, passavam mais rápido, atravessados e tortos. O descompromisso em continuar trabalhando forte, a decisão de novas mudanças, a noção de que a maturidade era volátil e os objetivos precisavam ser interminavelmente renovados. Àquela altura Diego havia assumido o papel de principal compositor e produtor da banda. Tarefa difícil e sobrecarregada que ele fez com maestria impar. As novas canções surgiam com o sentimento que tal ressaca pedia. Tapas na cara. Chacoalhadas certeiras que, por fim, transpiravam um novo horizonte.
Seguindo nosso padrão de transformação, 2010 deveria ter começado em novas ideias, novas empolgações e muita correria para realizar as coisas. Mas, como já disse, padrões nunca foram nosso forte. Logo no início do ano foi a vez do Rodrigo seguir suas prioridades. Uma perda que emergenciou mudanças ainda mais radicais. Foi preciso conversar, repensar todo o som, a maneira de tocar, de se mostrar. Aceitar que era preciso dar uns passos para trás para então conseguirmos avançar com tranquilidade novamente. Depois de tanto trabalho, o momento era de assumir que estava na hora de voltar essas etapas. Algo difícil. E, sinceramente, acredito que esse foi um motivo pontual para o que se apresenta agora. Momentos essencialmente pessoais.
A verdade é que a vida dos quatro sobreviventes do Velhos e Usados se tornou bem diferente. Paralelamente à banda cada um tomou um rumo. Caminhos que, nesse momento, dificilmente comportariam o tal “passo para trás”. Seja por preguiça, por cansaço, por falta de apoio, casamentos, trabalhos, profissões ou mesmo pela simples indisposição em fazer tudo de novo, em meio a novas e mais agitadas vidas. O fato é que chegamos a um ponto onde essa pausa se mostra mais do que necessária. Sabe o lance de sair do palco enquanto ainda existe aplauso? Pois é. Não queremos que o V.U. vá sumindo aos poucos pela rotina. Optamos por uma decisão seca. Difícil, porém inevitável nesse momento. Assim, assumidamente cessamos as atividades como uma banda regular, de ensaios semanais, shows freqüentes e etc. Claro, nem preciso falar que a parceria entre nós segue. A chance de, quem sabe, um dia voltarmos renovados em novos ciclos, jamais será descartada. Mas passa longe de projeções recentes. Por isso, cada um segue seu caminho.
Vamos fazer assim: encaremos isso como um casal de namorados que se gosta (a velha analogia interna das bandas) mas não consegue levar a relação à diante. Nada de brigas, nada de rusgas. Apenas uma decisão conjunta de quem ainda nutre um desejo íntimo de, quem sabe, se encontrar uma hora dessas para um sexo casual. É por aí… Trocando por música a parte do sexo, por favor!
Enfim. Nessas mal traçadas linhas eu quis passar um pouco de nossa história, mostrar como todos os detalhes caminharam de acordo com cada momento. Assim, fica mais fácil enxergar essa decisão como o reflexo de mais um. E nada de choro, nós estamos e estaremos aqui. O site, por hora, segue no ar. Esperamos que nossa som continue se propagando. Por isso, se você curte V.U. siga espalhando por aí! Sabemos que enquanto existir alguém escutando essas canções, a obra será eterna.
Encerro agradecendo aos que viveram esse sonho com a gente. Podem ter certeza que o clichê se encaixa perfeitamente nesse momento, pois tudo valeu à pena. Sem a menor dúvida faríamos tudo de novo! Foi foda, sério… Agradeço aos que baixaram as músicas, compraram o disco, foram aos shows ou que ainda ficam, mesmo de longe, torcendo para desembarcarmos em suas cidades. Aos amigos, parceiros, bandas, famílias. A todos que compartilharam momentos do mais puro êxtase no palco. E, principalmente, a esses fuckeramazingblaster caras talentosos que viraram mais do que grandes amigos, que me ajudaram, que me incentivaram, que muito me ensinaram a fazer música e que souberam aproveitar cada detalhe para fazer um som cada vez melhor. Afinal, esse sempre foi o lance do Velhos e Usados. Fazer melhor, deixar redondo. Meia boca pra gente nunca serviu e, justamente por isso, é assim a gente segue. Prometo que segue.
David.





















