Hoje o texto por aqui não será de minha autoria, mas de um velho amigo que vive há algum tempo na terra do Tio Sam e, por vezes, nos escreve contando histórias e estórias dessa experiência, no mínimo interessante. O amigo em questão se chama Michel Diener, um cabra bruto (virginiano do dia 4, como eu) que começou essa brincadeira de fazer banda comigo e com Diego. Enfim, ele permitiu que esse texto fosse exposto por aqui. Uma leitura rápida que faz a gente perceber alguns problemas que muitas vezes acreditamos estar longe dos cantos e guetos do primeiro mundo. Para mim serviu para enxergar que necessidade, ajuda e compaixão são universais e de responsabilidade geral.
"Hollywood, 14 de Outubro de 2008
O mundo
O mundo por vezes parece injusto e ingrato, e nos aparece de formas mais estranhas. Outro dia estava com o André na mesa de um bar discutindo um modelo mais justo de sociedade; ele propõe fim da bolsa de valores; eu mais dinheiro pra todo mundo. Não chegamos a nenhum consenso (claramente). Por sua passagem por Cuba, o André me relatou a realidade de um regime fracassado e pobre. Não existe nem papel higiénico em Cuba. São aproximadamente 330km que separam Miami de Havana; executivos de pescadores, Lamborghinis de taperas com esteiras para dormir, ricos de pobres.
Hoje eu estava aqui procurando algumas entidades sociais para cumprir 20 horas de serviço voluntário, como parte do meu programa da faculdade. Pessoalmente falando eu também preciso ajudar outras pessoas. Com o tempo a necessidade de dinheiro e a ganancia começam a me fazer mal. Todos estão sempre ocupados trabalhando e curtindo o dinheiro que ganham sem se preocupar com quem realmente precisa. Aqui no sul da Florida, mais especificamente em Miami existem mais mendigos que muitas capitais do Brasil. Uma amiga minha da Alemanha ate então nunca tinha visto mendigo na vida. E estranho pensar que no pais mais rico do mundo ainda existam tais problemas. Gente sem trabalho, que não tem onde dormir, e ate mesmo o que comer.
Por coincidência, hoje depois de um dia de procura por trabalho voluntário, apareceu uma senhora la no meu trabalho. Essa senhora as vezes aparece por la, e sempre pergunta pelo William, que já foi embora pro Brasil. Estava uma noite muito agradável, com uma lua cheia enorme e uma brisa de praia, quando a senhora chegou com duas sacolas. Eu e meu espanhol arranhado entendi que ela procurava pelo meu amigo que já foi e oferecia uma camiseta que estava dentro da sacola. A principio não dei muita atenção. Pensei que ela só queria vender as coisas que tinha e educadamente pedi pra ela voltar outro dia, que eu estava ocupado e não tinha dinheiro. Ela insistiu e disse que precisava muito, e explicou que precisava do dinheiro pra comprar agua. AGUA. Em pleno século 21, em uma das cidades mais ricas e luxuosas do mundo, eu me deparo com alguém precisando de agua?! Fiquei paralisado.
Eu lembrei do William que sempre deu atenção a ela, e em troca ela dizia que rezaria por ele. Ela trazia umas coisas pra ele, e nunca pediu nada em troca. Eu percebi que ela não queria esmola, e nem estava pedindo alguma doação. Percebi pela expressão do rosto que realmente ela precisava de ajuda. Abri minha carteira e só tinha $5 dólares. Dei a ela o dinheiro que tinha e pedi que ficasse com a camiseta, e vendesse para outra pessoa. Ela disse que não; quis que eu ficasse com a camiseta. Existia ali uma relação de troca, comercio, e não de esmola. Ela mais que depressa segurou minha mão e me agradeceu (quando a gente trabalha na rua muito tempo, aprendemos a ler as pessoas e dizer quando elas são sinceras ou não). Ela saiu em direcao ao mercado para comprar um galão de agua, e eu fiquei ali com uma camiseta na mão.
Depois que ela saiu, me bateu essa tristeza que saber que eu poderia ter ajudado mais. Os olhos pesaram e a expressão de alegria e agradecimento daquela senhora ficaram na cabeça pelo resto da noite. O André tinha razão em dizer que "do jeito que ta não ta certo" e que de fato a gente tem que fazer alguma coisa. Em tempos de crise financeira, desemprego, gasolina cara, isso e aquilo, eu acho que a gente pode (e deve) parar um minuto do nosso dia e ajudar quem realmente precisa. De certo quem um dia parou para ajudar alguma outra pessoa, sem esperar nada em troca talvez entenda o enobrecimento de alma de uma doação genuína. Acredito, sem demagogia, que todo nos temos o que dividir. Não quero dar exemplo, nem licoe, mas queria instigar um pouco as pessoas que conheço. Amanha espero levantar essa minha bunda gorda da cadeira e de fato fazer a diferença na vida de alguém. Espero ate mesmo que meus amigos também o facam… e os amigos dos meus amigos… e os amigos dos amigos dos meus amigo…a gente nao escolheu o sistema, mas podemos melhorar do nosso jeito.
Michel"