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    Minha casa, meu estúdio

    Webmaster | 07/06/2009 - 15:00

    O timbre perfeito, a ambiência de som aveludada, os efeitos de guitarra mais estranhos. Na hora de gravar uma canção ou mesmo um disco inteiro, os músicos têm de adaptar suas ambições aos conceitos, possibilidades e limitações do estúdio onde vão registrar seus trabalhos. Com o avanço e o consequente barateamento da tecnologia para a gravação de áudio, o que se viu nos últimos anos foi uma proliferação de estúdios montados em casa. Com isso, ganha-se em autonomia e variedade de perfis. Em Brasília, muitas bandas estão optando por gravar no aconchego do lar ou no home studio de amigos.

    Fernando Brasil, vocalista e guitarrista do Phonopop, já gravou com sua banda em estúdios grandes e pequenos. Em ambos os casos, ele vê vantagens e desvantagens. O grande lance é saber como resolver a música da melhor maneira com o equipamento usado. “Ninguém, faixa do disco novo do Phonopop, é uma das melhores em termos de resultado de gravação. E foi toda gravada na sala da minha casa, inclusive o cello”, conta. Para Zé Mendes, guitarrista e vocalista do quarteto The Pro, outra vantagem dos home studios é o preço. “As bandas independentes nem sempre têm dinheiro para investir. Ainda mais bandas em formação, que ainda precisam separar um bom dinheiro para comprar equipamentos.”

    “A mentalidade das pessoas tende a associar ‘caseiro’ com amador. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. O que faz um bom disco não é o lugar, e sim os músicos, as canções e como o disco foi gravado”, observa Gustavo Bill, do estúdio Macaco Malvado. “A história é cheia de casos assim. Boa parte do Exile on Main Street, dos Stones, foi gravado no porão da casa alugada pelo Keith Richards. O Achtung baby, do U2, foi gravado em um estúdio que, apesar de ter sido bom nos anos 1970, estava destruído em 1989, sem acústica, rede elétrica falhando, equipamento defeituoso, tudo o que não seria aceitável num estúdio e, ainda assim, é um dos melhores discos da banda”, exemplifica.

    O Macaco Malvado é nada mais nada menos que o quarto de Bill e um monte de equipamentos. “Na verdade, você só precisa de um computador. Hoje tem tantos softwares disponíveis que você não precisa nem ter um instrumento em casa, pode simular tudo no computador. Mas, é claro, o resultado vai ficar limitado. Com um bom microfone e uma interface de áudio, você pode gravar basicamente tudo em casa”, conta o produtor, atualmente um dos mais atuantes da cena alternativa candanga. Pelo Macaco já passaram Club Silêncio, Dinamites, Watson, Phonopop e Tiro Williams, entre outros.

    Vocalista e guitarrista da banda Velhos e Usados, Diego Marx produziu e gravou em casa Híbrido, disco de estreia do grupo. O local recebeu o nome de Inferninho, referência ao lugar utilizado para o registro das vozes. “Um cubículo de um metro quadrado sem ventilação e montado com colchões que, na verdade, é o meu guarda-roupa”, conta o músico. De tanto gravar em casa, Diego acumulou experiência para virar um profissional da área. “Hoje trabalho numa produtora de áudio produzindo tudo aquilo que fazia em casa, graças ao tempo dedicado ao estudo da gravação digital.” Parte dos equipamentos de Marx foi adquirida em sociedade com os músicos e produtores Xande Bursztyn e Beto Mejia, respectivamente trombonista e flautista da Móveis Coloniais de Acaju.

    A parceria também foi o caminho encontrado por Felipe Silva, Marco Rezende e Maurício Fonteles para montar o FM2 Audio. “No meu caso é mais do que um hobby, menos do que uma profissão. Sou engenheiro, mas não abandono minhas atividades no estúdio por nada. Realmente, é algo que complementa minha vida. No caso do Maurício e do Marco, essa atividade já é uma profissão”, conta Felipe, que, junto com os sócios, investiu mais de R$ 75 mil para montar e equipar duas salas (uma na casa de Marco outra na de Felipe).

    No caso deles, recuperar o investimento não está nos planos por enquanto. “Tem muita banda que não tem condições de pagar. A gente faz porque gosta”, garante Marco, que já trabalhou com grupos como Siltu, Leg, Rainha Vermelha e, atualmente, The Pro. “É claro que gostaríamos de fazer isso como um trabalho pra vida toda, só que é complicado”, lamenta. “Estúdios caseiros vêm proliferando demais, com gente fazendo preços que chamo de ‘liquidação da PuroPano’. O mercado não está muito bom pra transformar a atividade em profissão”, avalia o experiente produtor Guilherme Bonolo, o Guiminha.

    No caso desses produtores, o conhecimento veio sem um ensino formal. “Aprendi com as gravações do Móveis, com amigos, estudando pela internet e, principalmente, na prática, fazendo acontecer”, relata Xande Bursztyn. Mas é preciso saber onde buscar informações”, ensina Gustavo Bill. “Não é pesquisando ‘gravação’ no Wikipédia que você vai aprender a gravar. Existem dezenas de fóruns excelentes espalhados pelo mundo debatendo o dia inteiro, desde as questões mais básicas até os esquemáticos de equipamentos clássicos — caso você queira se arriscar a montar os seus. E a prática realmente ensina muito. Você pode saber toda a teoria, mas se não ficar horas experimentando e vendo como tudo funciona, ela não serve de nada.”

    Mais próximos dos produtores

    Um fator determinante tem levado bandas a optar por gravar em casa: o produtor. “Logo que comecei a tocar em bandas, minha maior frustração era entrar em um estúdio profissional e não conseguir gravar os timbres que imaginava para as músicas. Sempre esbarrava em técnicos preguiçosos, que pouco se importavam com a ‘bandinha’ que estava ali gravando”, reclama o guitarrista do Super Stereo Surf, Harrisson Azevedo. Antes do baile, primeiro disco do quarteto, foi gravado no estúdio que ele montou em casa, o Meketref.

    “Quando planejávamos gravar o Híbrido, não conseguíamos pensar num nome que coubesse em nosso orçamento e entendesse o que queríamos dizer”, lembra Diego Marx. Felipe Silva acredita que essa questão faz grande diferença: “A linguagem do produtor geralmente é mais próxima da linguagem das bandas. Isso agrada não só pelo resultado — qualidade do produto/serviço —, mas pela vivência, como integrantes do processo de gravação”. Xande, por sua vez, acredita que o produtor se envolve mais com a banda, uma vez que ele passa a frequentar sua casa. “Esse contato é muito bom. Permite ao produtor entender melhor a estética da banda, além de seus objetivos com a gravação”, avalia.

    Sem pressão
    Guitarrista da banda Tiro Williams, Eduardo Oliveira concorda com o trombonista. “Gravamos nossa primeira demo em um estúdio profissional e agora um CD cheio no Macaco Malvado. O melhor de ter gravado na casa do Bill é o relaxamento que isso proporcionou, poder gastar o tempo que queríamos gravando cada música. Não tínhamos aquela pressão de ter que gravar logo porque o relógio estava correndo, como acontece na maioria dos estúdios profissionais, onde se paga por hora. Dá pra gravar com mais cuidado, sem pressa, até que o resultado fique do jeito desejado.”

    Djalma Maia, o Phú, baixista do Macakongs 2099, construiu em casa um estúdio, o Homie, para gravar sua banda e a de amigos. E reforça a necessidade de gravar com alguém que entenda do assunto. “Já ouvi muitas gravações que são um lixo, parece que foi gravado numa garrafa pet. De que adianta economizar o dinheiro que seria gasto num estúdio grande se o que foi feito em casa não ficar bom? Qual a diferença?”, questiona. “É como costumo dizer: equipamento é bom, mas o piloto é mais importante”, afirma Guiminha. Entre erros e acertos, um coisa é fato: gravar nunca foi tão acessível. (Pedro Brandt)

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